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Saia de casa e vá olhar o mundo.

By on April 30, 2015 . Category Column

Tem horas que nem a melhor música, o chocolate mais quentinho ou um beijo carinhoso do marido me deixam criativa. Sim, há momentos em que eu quero tomar alguma injeção de pura inspiração para escrever, mas, só ouço a caneta batendo no caderno. Ansiamos que tudo saia de uma fonte inesgotável interna. No entanto, é preciso sair pra olhar o mundo. Por isso, às vezes, fico grata por precisar ter outro emprego e, não só viver de escrever. Isso me obriga a pegar metrô, andar pelas ruas do Centro, frequentar diferentes restaurantes e conhecer as mais interessantes pessoas. Será que eu sairia tanto assim, se tivesse todo o tempo do mundo para criar? Talvez, eu encarasse meu apê-kinderovo como uma casa de João de Barro para me esconder.

Como jornalista, aprendi a perguntar questão em cima de questão e tirar o que o outro não quer dizer, porque geralmente o que se diz abertamente não é o mais importante. Como publicitária, aprendi a ler e seguir os mais diversos sites sobre novas criações de comerciais e peças gráficas para estar atualizada. Além disso, a ir aos eventos de arte e viajar ao máximo para participar de outras culturas. O exercício desses estímulos para sobrevivência econômica e honra ao pagamento do pãozinho da padaria de todo dia influíram e muito na minha criação textual.

Ou seja, mesmo quando não estamos com aquela super ideia na cabeça para o pedido de criação do cliente e vamos para a rua pegar um café, ainda estamos na labuta. Ficar em prontidão para as grandes ideias já é parte do processo. Pablo Picasso dizia: “Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando”.

Não violente a sua cabeça. Nem literalmente batendo nela, nem sentado olhando a parede e implorando uma grande ideia. Exercite se afastar, dar uma volta com o cachorro, ver um filme, um seriado, um livro, uma revista. Não procure ali algo que lhe toque obstinadamente como caçador de tesouro. Deixe acontecer. Talvez, nada aparentemente será usado, mas, terá te emocionado, tocado ou movido por dentro lá no seu inconsciente para surgir o melhor capítulo de livro que já escreveu. Não há vitória sem suor. Thomas Edison já fazia as contas: “Talento é 1% inspiração e 99% transpiração.”

Se você pensar numa lista de profissões agora vai ver que a maioria delas de alguma forma precisa de olhos atentos para descobrir algo. O médico precisa enxergar algum sintoma silencioso, o advogado precisa observar as provas, o policial precisa observar a cena do crime, o pintor precisa observar a cena, o cantor precisa observar a plateia. E o escritor? Ele observa o mundo inteiro que está aí. Joyce Rosa de Sousa diz que: “Nossa mente precisa ser treinada para observar. Descobrir é ver o que todos viram e pensar o que ninguém pensou”.

Mas, é necessário que você oriente o seu olhar, como quem ajusta a lente de uma câmera e a posição do binóculo. Por exemplo, hoje, eu estava subindo a escada do metro e achei tão bela uma blusa branca de bolinhas pretas de uma senhora. Olhei as costuras, a forma, os acabamentos… até que encontrei uma descostura na lateral. Pisquei de novo. Estava nas costas e talvez ela não soubesse. Sorri, era como se eu descobrisse um segredo que a própria desconhecesse. Sorri daquela ideia tão boba e simples. Ela virou para a esquerda e eu para a direita.

Com o tempo, aprendi a muito discretamente passar o olhar e escanear tudo: os textos das tatuagens, a forma dos chaveiros, os brincos, o desenho de logos nas bolsas, os estilos de cintos e sapatos. Não ligo para moda, como deve ter acabado de lhe ocorrer. O que fico muito atenta é nas formas e se elas fazem sentido com as pessoas. Uma vez, por exemplo, havia uma senhora vestida muito humildemente, até um pouco suada e com unhas sujas, sentada, no metrô. E ela estava abraçada a uma enorme bolsa de marca caríssima, sim, muito grande como uma mala de alça. Não estou nem aí se é verdadeira ou não, se ela pode ou não ter aquela bolsa. Isso interessa aos preconceituosos. Como publicitária, fico atenta ao layout do todo. Não combina, não encaixa. A bolsa é grande demais, não equilibra visualmente com nada, fica quase gritando na foto do meu olhar. E ela a abraça como um troféu muito precioso e isso parece tão interessante. Deve ter alguma história muito legal sobre aquele acessório que eu nunca poderei perguntar. Mas, não importa. Eu só observei e guardei em algum lugar da memória. Assim, eu vou criando um imenso arquivo de personas icônicas para minhas araras da mente.

Se você é homem pode treinar e muito o olhar. Se é mulher, já deve ter nascido com mais vantagens nessa característica. Mas, seja lá seu grau aguçado de atenção, por favor, seja muito discreto e respeitoso. Nada de perguntas invasivas ou de encarar as pessoas como laboratórios sem ética. Até porque assim colherá muito mais cenas interessantes.

Ouvir também é vital. Esteja com os ouvidos sempre abertos para qualquer conversa perto de você. Como é o tom de voz? Quais são as pausas na narração? As gírias? Os erros de conjugação, os sotaques e bordões, os risos. O exercício de ter ouvidos treinados te influenciará na escrita de diálogos mais verossímeis. Não é que o tema da conversa será usado, pode até acontecer, claro, mas, eles ficarão guardados no inconsciente.

Sou apaixonada por psicologia e, na faculdade, li muito dos teóricos sobre a mente humana. Até hoje compro livros e quero mais e mais saber de novas linhas. Isso porque o que as pessoas fazem e falam não é tão impactante para mim como entender as motivações, repressões e medos da camada inferior dos seus atos.  É aí que extraio a matéria prima para criar personagens. (Haverá um post para isso em breve).

O fato é que não deve criar uma separação. Tipo, agora vou usar o fim de semana para observar o mundo e durante a semana eu só trabalho. Ser escritor é sempre estar atento a tudo, sem hora ou lugar. Gosto de discretamente anotar no celular alguma frase ou bordão divertido. Se você preferir, compre pequenos bloquinhos pretos e anote tudo. Assuma que é um artista. Se perguntarem, fale que é só um lembrete de uma conta para pagar que anotou. Isso porque quanto mais invisível passar, mais poderá ver o despercebido aos demais.

O mais difícil não é criar personagens perfeitos, é criar personagens reais, que poderia encontrar por aí. Homens CEOS de Ferrari são tão menos estimulantes, ao menos para mim como criadora. Quando um leitor sente muita raiva de um personagem e até se irrita com ele, é porque estou me tornando melhor no que faço. Se o meu personagem ganhar apresentar identidade própria, nunca mais será confundido com um personagem de mentira. Essa é minha, a nossa missão!

* Por Li Mendi, embaixadora do Widbook, escritora, jornalista, publicitária e louca por literatura. Siga a autora no Widbook e conheça os seus livros!

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