Narrar no masculino ou feminino? O que você prefere?

By on November 19, 2015 . Category Column

Se me perguntarem qual a voz que gosto mais de usar para contar uma história, vou revelar: masculina.

O narrador no masculino me impõe mais desafios. Pensar como mulher é fácil quando já se é mulher. Escrever com o jeito de falar masculino é uma escada a se evoluir para mim.

Portanto, se você não tem ainda muita experiência nisso, veja filmes e leia bons livros em que o narrador é o herói. Isso te traz um outro ponto de vista como escritor. Aproveite aqui a plafatorma do Widbook para fazer ótimos livros com essa experiência.

Aqui vão algumas dicas e cuidados que aprendi ao longo das minhas obras:

1-Homem não costuma observar maquiagem, detalhes de roupas e marcas.

Então, se o seu personagem fala que “o blush estava rosa” ou “a saia era bordada” você pode causar no inconsciente do leitor uma pequena alfinetada de dúvida: “isso é verossímil”? Porque, ao ler, o leitor busca o senso comum de atitudes masculinas para fazer suas associações cognitivas.

Ontem, estava lendo um livro em que o personagem dizia que estava fazendo faxina na casa e pedia para não achá-lo gay (ele usou essa expressão). Aquele recurso de narrativa era claramente da autora querendo passar essa informação da faxina, mas, pedindo uma licença. Qual o problema em usar isso na narração? Eu lembrei que aquilo na minha mão era um livro. Mas, o que queremos é uma porta que nos leve para uma história que pareça perfeitamente de verdade até a última página.

2-Homem muito meloso nas declarações é igual café, cada um gosta de um jeito: mais melado ou mais amargo.

Mas, pense bem se os seus amigos e referências masculinas de modo geral escrevem extensas cartas de amor e longas mensagens de celular? O seu personagem masculino pode ser uma exceção, mas, será que seu leitor não vai achá-lo falso?

Essa é uma grande dificuldade da escritora com cabeça de mulher que dá alguns deslizes ao narrar um homem romântico.

E o extremamente homem-macho-grosso? Olha, já tentei criar algo assim caricatural em um livro. E juro, recebi tanta crítica ruim de gente que odiou o livro que eu parei no meio. Foi um excelente teste para eu entender que existe o homem aspiracional que também não pode ser o homem falso. E é esse homem da “narrativa equilibrada” que elas querem ler.

Quando vamos para o segmento HOT, temos aí o homem mais dominante, o que gosta de estimular a dor etc. Neste caso, pode-se até ser um personagem menos “romântico dos velhos clássicos”. Mas, aí cabe ao autor fazer um bom estudo sobre estes tipos de práticas sexuais para não montar um personagem com características e desejos que não batem com que o nicho de leitor (que sabe tudo do tema!) quer ler. Exemplo: você vai narrar uma cena de submissão. Você já leu sobre o assunto? Já procurou saber o que as pessoas sentem como dominante e como dominado e por que buscam essa satisfação? Primeiro leia, estude e depois pegue seu texto para escrever. Porque esse público é bastante crítico, exigente e não aceita criações de ignorantes no tema… que podem passar até uma visão errada e preconceituosa.

3-Homens milionários.

Eu não sei você, mas, não tive namorados ou amigos CEOS com Ferrari e que me levam para passear de avião particular. E essa é uma reclamação do público feminino brasileiro quando veem personagens de livros traduzidos construídos com este padrão de status social que não condiz em nada com a realidade das leitoras brasileiras. Tem meninas que curtem, sim. Mas, num debate ao vivo que fiz no meu grupo, essa foi uma das críticas mais recorrentes: qual o limite na criação do homem milionário e inatingível?

Pode ser bacana o seu personagem chegar com um carro legal, levar para um restaurante chique e ter uma casa uau. Mas, traga a cor local do Brasil. Que tal citar marcas que tem por aqui e lugares que outras pessoas poderiam ir?

Uma vez, um autor de novela respondeu que mesmo que não houvesse merchan pago, ele deixaria algumas marcas aparecerem na novela, porque ninguém vive em um mundo onde todos os rótulos tem uma tarja branca para esconder. E quando o telespectador vê a cena, ele precisa ver algo real.

Como o livro não tem o recurso da imagem, claro, você não é obrigado a citar marcas. Mas, se for, procure dar um ar brasileiro.

Agora, lembre-se: se o personagem for masculino, ele não sabe bem o nome de marcas de batom e bolsas, ok? Fique sempre se policiando se você for autora mulher… Eu mesma já escorreguei várias vezes. Por isso, a revisão é importante.

4-Se for intercalar um capítulo com narração “dele” e outro “dela”, tente escrever primeiro uma boa quantidade de capítulos na pessoa da mulher e, depois, na voz do homem. Isso vai te ajudar a deixar a “pegada” do texto bem diferente. Para quem escreve aqui no Widbook capítulo a capítulo, é comum acabar que os dois personagens fiquem com um estilo de contar a história quase igual.

Você pode fazer cinco capítulos de um e de outro e só depois começar a postar aqui.

Outro recurso é colocar no seu quadro ou no seu bloco de anotação lembretes do estilo de cada um. Exemplo: ela narra de forma mais engraçada e atrapalhada; ele narra de forma mais poética e observadora com poucos diálogos. Tente criar algo fixo que te ajude a incorporar um e outro na hora de mudar a voz da narrativa.

Importante: se for usar essa intercalação, evite recontar um fato. Exemplo: os dois se encontram a primeira vez. Primeiro ele narra como foi, depois, ela narra a mesma coisa na visão dela.

Já recebi muitíssimas críticas de leitoras que dizem que isso torna o livro maçante e sem expectativas, fazendo o leitor querer passar logo as páginas do que ele já sabe. Então, procure repetir apenas um trecho que seja super importante revelar o que realmente o leitor não iria saber pela narrativa dele.

Um bom caminho é tornar a história sequencial. No capítulo dele o primeiro encontro. No dela, o segundo encontro… e assim por diante.

Só cuidado pra ter um equilíbrio. Exemplo: em um capítulo ela narra um beijo. No outro capítulo ele mostra o ponto de vista dele em outra cena de beijo.

Se não se atentar a isso no roteiro, pode acabar fazendo com que “caia para ele” só cenas tensas e, para ela, só cenas românticas. E isso faz com que seu personagem não seja tão querido por um leitor. Tente dar equilíbrio na montagem do seu roteiro.

5-Metade do livro na voz feminina e metade na voz Masculina.

Eu desaconselho. Não por você, que certamente vai adorar escrever, é pelo seu pobre leitor mesmo. Explico-me!

Estava eu lendo um livro bacana sobre uma história de amor narrada só pelo personagem masculino. Consegui criar aquela identificação e passei para a fase da torcida. Aquela etapa em que o leitor torce pelo personagem como quem torce para seu time. O elo de afeição e empatia está criado completamente.

Eis que no meio do livro exatamente começa a narrar o personagem feminino tudo que eu já sabia na versão do meu lindo personagem. Sério, foi como se tivessem matado ele pra mim. Eu fiquei chateada, magoada com a autora, traída, usada. Respirei fundo e comecei a ler de novo a visão dela.

Mas, eu já sabia de todos os acontecimentos previamente! Era como se tornasse menor a narrativa dele. E eis que o livro termina com a narração dela. Assim, a vitória do meu amado herói é contada por outra pessoa. Então, eu estava distante dele, vendo-o de fora. Eu não sabia qual foi a emoção dele ao se declarar e ela aceitar seu amor.

6-Narrativa em terceira pessoa.

Eu particularmente curto mais como autora mostrar o que se passa dentro da cabeça do personagem na primeira pessoa. Isso torna a história mais verdadeira e mexe mais com o sentimento do leitor. Você traz aí a parcialidade. Pode narrar um personagem mal que induz o leitor a acreditar nas suas teorias falsas, por exemplo, que podem ser desmascaradas no próximo capítulo.

Li um livro sensacional em que o cara era tão psicopata que plantava provas e fazia a mulher que narrava a história acreditar em todas as suas pistas falsas e no seu ar de bom moço. E eu como leitora acreditei também. No fim, fui surpreendida junto com ela e juro, eu quis torcer para ele não morrer, porque me afeiçoei a ele como também a minha diva personagem. Veja, isso traz um campo de complexidade psicológica ímpar.

Capitu traiu ou não traiu? Machado de Assis só conseguiu deixar isso em aberto porque a narração foi em primeira pessoa. Quem disse que tudo aquilo não foi da cabeça cheia de ciúmes do narrador em primeira pessoa? Nunca saberemos.

Claro, ótimos livros são bem escritos em terceira pessoa. Mas, a terceira pessoa traz a onisciência. Você precisa narrar na maioria das vezes o que realmente está acontecendo.

Enfim, agora me conte você, como costuma escrever seus livros? Qual a voz que mais usa e por quê?

* Por Li Mendi, embaixadora do Widbook, escritora, jornalista, publicitária e louca por literatura. Siga a autora no Widbook e conheça os seus livros!

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